Capital simbólica: uma tradição que precisa ganhar mais sentido

Todo 11 de agosto, São Francisco do Sul recebe o título de capital simbólica de Santa Catarina. A lei que oficializou essa tradição remete à criação da Capitania de Santa Catarina, em 1738, reconhecendo o município mais antigo do estado e o terceiro mais antigo do Brasil como berço da história catarinense.

Mas afinal, o que essa transferência significa, na prática, para a cidade e seus moradores? Hoje, a data se resume a solenidades formais, inaugurações e discursos políticos. Este ano, o roteiro teve assinatura de convênios, descerramento de placa da reforma da Delegacia da Comarca, entrega de títulos de cidadão honorário, promoção de militares estaduais, inauguração de uma quadra escolar e presença restrita a parlamentares da base do governo estadual.

A política polarizada que vemos hoje impede mais participação de parlamentares e da própria comunidade, mesmo que o interesse seja único – a cidade de São Francisco do Sul a capital do estado.

Já houve tempos, o dia ganhava mais vida. Escolas trabalhavam a história do município, historiadores eram convidados para contar a história da cidade, instituições públicas se engajavam. O Cine Teatro X de Novembro já recebeu sessões da Assembleia Legislativa com debates e votações. Até o Poder Judiciário marcou presença, com a 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça realizando sessão especial aberta à comunidade.

A transferência simbólica poderia, e deveria, ser mais que um ato protocolar. Poderia se transformar em uma celebração histórica e comunitária, com a participação de estudantes, idosos, entidades culturais e moradores. Imagine um dia de festa, com apresentações musicais, grupos folclóricos, feira de artesanato no Aterro da Babitonga, valorizando artistas e produtores locais. Uma oportunidade de recontar a história, mostrar o patrimônio e manter viva a cultura, indo além das falas institucionais repetidas em propagandas oficiais.

Seria também a ocasião ideal para debater problemas urgentes da cidade que afeta o cidadão local, mas também os cidadãos de outras cidades catarinenses: transporte aquaviário na Baía da Babitonga, frequentemente fonte de transtornos; pavimentação e calçadas na SC-415, que corta uma área populosa com escolas e creches, mas segue em condições precárias; a necessidade de um hospital de alta complexidade para reduzir a sobrecarga dos hospitais de Joinville; a construção de um pequeno túnel que corta a BR-280 na região do bairro da Agua Branca para atender moradores, principalmente os estudantes que correm risco de morte ao atravessar, projeto de um ex-vereador que infelizmente não foi executado. Mesmo sendo rodovia federal, vimos que muitos projetos estão sendo executados, quando há participação empresarial, política e democrática, sem focar em partidos.

Quanto a energia elétrica na praia do Ervino, um grave problema da população. O convênio de R$ 12 milhões assinado para atender 150 casas e 100 terrenos é um passo, mas insuficiente diante da dimensão dos loteamentos sem luz e da ausência de regularização fundiária, sem contar da região industrial no bairro Miranda, caminho à praia do Ervino, onde terrenos e diversas empresas instaladas ali precisam de energia.

Na solenidade deste ano, um episódio chamou atenção: a história da fundação de São Francisco do Sul foi contada de forma equivocada. Não, a cidade não nasceu de um romance entre uma francisquense e um francês. Os registros mostram que o filho do cacique Iça Mirim foi levado à França por Binot Palmier de Goneville, com a promessa de retorno em 20 luas. Ele nunca voltou, casou-se com a sobrinha de Binot e, séculos depois, seus descendentes vieram conhecer a terra de seus antepassados.

A mudança simbólica da capital é também homenagem ao primeiro povoamento em terras catarinenses, em 1658, quando a cidade ainda se chamava Nossa Senhora da Graça do Rio de São Francisco – e não São Francisco de Assis, como dito na solenidade. Em 1660, a povoação foi elevada à categoria de Vila e, em 1665, à Paróquia.

São Francisco do Sul tem memória, cultura e tradição que merecem mais do que um ato protocolar no calendário. Ser capital simbólica deve ser um dia para reafirmar, com gestos concretos, o orgulho e o pertencimento à cidade mais antiga de Santa Catarina.

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