Canal do Linguado entra em nova fase de tratativas com projeto federal e mobilização regional para possível reabertura

  • Foto Grupo Pró Babitonga - Professor Cláudio Turek coordenador da Câmara Técnica Canal do Linguado do Grupo Pró Babitonga. "O objetivo é estruturar tecnicamente o caminho para qualquer intervenção futura."

O futuro do Canal do Linguado, em São Francisco do Sul, entrou em uma nova fase de discussão. Após a inclusão da possibilidade de construção de uma ponte no projeto de duplicação da BR-280, começam agora tratativas para a elaboração de um termo de referência que irá definir as condições, responsabilidades e diretrizes para uma eventual reabertura do canal.

A iniciativa envolve diferentes instituições e marca um novo momento na mobilização regional. Segundo o professor Claudio Tureck, coordenador da Câmara Técnica Canal do Linguado do Grupo Pró Babitonga, o objetivo é estruturar tecnicamente o caminho para qualquer intervenção futura. “O termo vai definir o que é preciso e quais as responsabilidades”, explica.

A construção desse documento deve contar com a participação de órgãos como o Ministério Público Federal, o Ibama e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), além de outras entidades envolvidas na gestão ambiental e logística da região. Também está em discussão a realização de um seminário técnico para aprofundar o debate.

Neste momento, não há previsão para a reabertura do canal. A medida depende de licenciamento ambiental específico, definição de recursos financeiros e alinhamento entre diferentes esferas de responsabilidade, um cenário que evidencia a complexidade do tema.

Projeto da BR-280 avança e inclui análise de ponte no Linguado

Paralelamente, o DNIT homologou recentemente a licitação para contratação do novo projeto de duplicação da BR-280 no lote 1, entre Araquari e São Francisco do Sul. O trecho é considerado estratégico por conectar o porto à BR-101 e concentra intenso fluxo de veículos.

O edital atende a uma recomendação do Ministério Público Federal e prevê a análise da construção de uma ponte sobre o Canal do Linguado. A proposta tem como base estudo técnico elaborado pela Universidade do Vale do Itajaí, concluído em 2024 a partir de diretrizes do Grupo Pró Babitonga.

O estudo sugere a abertura parcial do canal, com a retirada de cerca de 100 metros do aterro e a instalação de pontes rodoviária e ferroviária. Também aponta a necessidade de remoção de aproximadamente 530 mil metros cúbicos de sedimentos acumulados ao longo das décadas.

No entanto, o projeto atualmente contratado pelo DNIT irá avaliar apenas a ponte rodoviária, como solução para viabilizar a duplicação da rodovia. As demais intervenções, incluindo a reabertura mais ampla do canal, dependerão de estudos ambientais específicos e da definição de responsabilidades entre os entes envolvidos. O prazo estimado para conclusão do novo projeto é de 19 meses. Após essa etapa, ainda será necessário realizar nova licitação para execução das obras.

Um problema que vai além da rodovia: o assoreamento da Baía Babitonga

Embora a discussão esteja diretamente ligada à BR-280, o problema central é ambiental e atinge toda a Baía Babitonga.

O Canal do Linguado é, na prática, um aterro construído na década de 1930, com conclusão em 1935, que interrompeu a circulação natural das águas da baía. A estrutura foi inicialmente implantada para passagem ferroviária, substituindo uma antiga ponte, e posteriormente consolidou a ligação rodoviária entre São Francisco do Sul e o continente.

Com a interrupção do fluxo hídrico, as margens da baía, nos dois lados do antigo canal, passaram a sofrer com o acúmulo de sedimentos. A baixa circulação da água favorece o depósito de matéria orgânica e poluentes, especialmente oriundos das cidades do entorno, como Joinville. Esse processo de assoreamento compromete a qualidade da água, altera o equilíbrio ecológico e impacta atividades econômicas, como a pesca e o turismo.

Uma das principais propostas em debate ao longo dos anos é justamente a reabertura do canal, total ou parcial, para restabelecer a circulação das águas da Baía Babitonga em direção ao mar aberto, especialmente pela região de Balneário Barra do Sul.

Histórico de tentativas e um “mosaico” de responsabilidades

A discussão sobre o Canal do Linguado não é recente. Ao longo das últimas décadas, foram realizados estudos, audiências públicas e propostas técnicas que, até o momento, não avançaram para execução. Agora, com a inclusão do tema no projeto federal da BR-280 e a articulação institucional em torno do termo de referência, o debate entra em uma fase mais estruturada. Segundo o professor Claudio Tureck, o desafio está na definição de um “mosaico” de responsabilidades, envolvendo o DNIT, o Ministério dos Transportes, a concessionária da ferrovia e órgãos ambientais. Essa articulação será determinante para viabilizar qualquer solução que integre infraestrutura e recuperação ambiental.

Entre mobilidade, meio ambiente e desenvolvimento regional

Atualmente, o trecho do Canal do Linguado é um dos principais gargalos logísticos da região. O fluxo intenso de veículos, especialmente caminhões com destino ao porto, gera congestionamentos frequentes, agravados durante a alta temporada. Ao mesmo tempo, o avanço do assoreamento na Baía Babitonga reforça a urgência de uma solução que vá além da duplicação da rodovia.

A nova fase de tratativas representa mais um capítulo de uma discussão histórica que envolve mobilidade, meio ambiente e desenvolvimento regional. Desta vez, com maior integração entre estudos técnicos, órgãos públicos e mobilização da sociedade, cresce a expectativa de que as propostas avancem de forma mais concreta.

Ainda sem prazos definidos para a reabertura do canal, o que se desenha é um processo de construção coletiva, técnico, institucional e social, que pode definir o futuro de uma das regiões mais estratégicas de Santa Catarina.


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